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Perspectivas do uso do hidrogênio verde nos setores de fertilizantes e siderúrgico

Estudo do Oxford Institute Energy Studies alerta que, embora o Brasil possua um grande potencial para a descarbonização de setores industriais, como fertilizantes e siderurgia, a realidade econômica e a falta de políticas de apoio tornam essa transição um desafio complexo. O documento, publicado esta semana, analisa as oportunidades e desafios da produção e consumo de hidrogênio de baixo carbono no Brasil e em outros países da América do Sul.

Em entrevista à agência epbr, Ieda Gomes, pesquisadora do Instituto e autora do capítulo do estudo sobre o Brasil, afirma que o principal obstáculo para o desenvolvimento da indústria do hidrogênio é o preço. No entanto, ela ressaltou que os governos estão se esforçando para tornar o energético mais competitivo, visando a descarbonização.

“A barreira é o preço do hidrogênio. Ele é caro porque não tem produção, não tem demanda. Em outros países, como por exemplo no Reino Unido, o que se está procurando fazer é criar uma demanda, onde o governo financia através de subsídios ou ele garante um preço mínimo para o hidrogênio”, diz Gomes.

Atualmente, o Brasil gera a maior parte de seu hidrogênio (H2) de forma convencional a partir de gás natural, rota conhecida como hidrogênio cinza, sendo a Petrobras responsável por cerca de 95% da produção e consumo.

Apesar da substituição do hidrogênio cinza pelo hidrogênio verde nas fábricas de fertilizantes e refinarias da Petrobras parecer a opção mais óbvia, no curto e médio prazo, segundo o estudo, é improvável que a companhia faça essa troca por conta dos altos custos relacionados ao hidrogênio verde.

A substituição do hidrogênio cinza por alternativas mais limpas é vista pelo instituto britânico como uma aplicação mais imediata e adequada para a siderurgia nacional, de olho na exportação para o mercado europeu.

Segundo estimativas da Oxford, para uma conversão gradual da indústria siderúrgica brasileira em direção à produção de aço verde, até 2040, seria necessário a produção de até 600 mil toneladas de hidrogênio verde por ano.

Em segundo lugar como potencial consumidor aparece o setor de fertilizantes. O documento lembra que diversas plantas de fertilizantes estão inoperantes ou operando abaixo de sua capacidade devido à baixa competitividade do gás natural no país, o que torna o fertilizante nacional mais caro que o importado.

O estudo cita que já foram feitos alguns “tímidos” progressos. Por exemplo, o governo federal chegou a um acordo com os estados permitindo a paridade fiscal para o mercado interno em relação ao produto importado.

No entanto, os autores avaliam que isto não seria suficiente para fomentar a produção nacional se não for acompanhado de incentivos fiscais e um regime especial de incentivos, por exemplo, para o desenvolvimento de uma indústria de fertilizantes infraestrutura (FII), com um período de validade de pelo menos cinco anos.

“Para baratear esse preço e tornar competitivo com o fertilizante importado, você teria que dar incentivos fiscais, reduzir impostos, reduzir ICMS, [para] ter vantagens [em relação ao] fertilizante importado”, diz Ieda.

Ela acredita que o hidrogênio verde poderia substituir o gás natural na fabricação de fertilizantes, mas enfrenta o mesmo problema de preços altos.  “O preço do gás é muito alto no Brasil, mais de 10 dólares no City Gate. A indústria paga 16 a 18 dólares por milhão de BTU. O preço do hidrogênio produzido no Brasil, mesmo com energia renovável, ainda é muito caro, está estimado em torno de 4 a 6 dólares por quilo, equivalente a mais de 30 dólares por milhão de BTU de gás natural”, avalia.

Para estimular a geração e o uso de hidrogênio limpo, o documento sugere algumas medidas-chave:

  • Aprovação de um marco regulatório para o hidrogênio de baixo carbono até 2025;
  • Criação de um regime especial de incentivos para o desenvolvimento da infraestrutura da indústria de fertilizantes;
  • Emissão de debêntures de infraestrutura e criação de instrumentos financeiros combinados para canalizar recursos de bancos multilaterais e do mercado de capitais nacional;
  • Introdução de um sistema de certificação renovável similar ao implementado para biocombustíveis, permitindo a emissão de créditos de descarbonização com base em pontuações de eficiência energética e ambiental.

Epbr, 28/05/2024.

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