Entrevista – GlobalFert / João Pedro Cury, CEO e acionista do Grupo Santa Clara
Em um cenário marcado por maior seletividade do produtor rural, pressão sobre custos e crescente demanda por eficiência no campo, o mercado de fertilizantes passa por uma transformação relevante no Brasil. Para entender como essas mudanças impactam a dinâmica do setor, especialmente no segmento de fertilizantes especiais, e quais são as estratégias adotadas pelas empresas para enfrentar desafios como volatilidade internacional, dependência de importações e gargalos logísticos, conversamos com João Pedro Cury, CEO e acionista do Grupo Santa Clara, que compartilha sua visão sobre as principais tendências e perspectivas para os próximos anos.
1. Diante das expectativas para o consumo de fertilizantes em 2026, como a Santa Clara enxerga a evolução da demanda por fertilizantes especiais?
Para a Safra 2026/27, enxergamos um produtor mais criterioso na alocação de capital, principalmente em um ambiente de maior pressão sobre custos e rentabilidade. Nesse cenário, a tendência é de fortalecimento das tecnologias que entregam eficiência agronômica, estabilidade e maior previsibilidade de resultado.
Os fertilizantes especiais ganham espaço justamente por estarem conectados ao conceito de produtividade com eficiência. Nas principais culturas, como soja, milho e cana-de-açúcar, o foco deixa de ser apenas volume aplicado e passa a ser retorno por hectare, eficiência de absorção e maior performance fisiológica da planta.
É um movimento estrutural da agricultura brasileira, cada vez mais orientada por tecnologia e qualidade de manejo.
2. Considerando a alta nos custos de matérias-primas e pressões logísticas, quais são as estratégias para preservar competitividade e margens?
O cenário global exige disciplina operacional, inteligência de suprimentos e forte capacidade de adaptação. Custos de energia, matérias-primas e logística continuam pressionando toda a cadeia, e isso demanda uma atuação estratégica em diferentes frentes.
No Grupo Santa Clara, trabalhamos principalmente em três pilares: desenvolvimento de tecnologias de maior eficiência agronômica, gestão ativa da cadeia de suprimentos e ampliação de soluções menos dependentes de commodities globais concentradas.
Além da diversificação de fornecedores e do planejamento antecipado, avançamos em segmentos com maior diferenciação tecnológica e potencial de geração de valor ao produtor. O objetivo não é apenas preservar margem no curto prazo, mas construir competitividade sustentável no longo prazo.
3. Como a Santa Clara avalia a dependência do Brasil em relação às importações de fertilizantes e quais oportunidades existem para a produção nacional?
A dependência brasileira de fertilizantes importados continua sendo um tema estratégico para o agro nacional, especialmente diante das volatilidades geopolíticas e logísticas globais.
Ao mesmo tempo, esse cenário cria uma oportunidade relevante para o fortalecimento de tecnologias desenvolvidas no Brasil, principalmente em segmentos nos quais o país possui vantagem competitiva, como bioinsumos, fertilizantes especiais e soluções de maior eficiência agronômica.
O Brasil reúne biodiversidade, capacidade industrial, conhecimento técnico e um ecossistema de inovação cada vez mais maduro. A tendência não é substituir integralmente as importações, mas construir uma matriz mais equilibrada, resiliente e tecnologicamente sofisticada.
4. Quais são os principais gargalos logísticos e como eles impactam o mercado de fertilizantes especiais?
A logística permanece como um dos principais desafios estruturais do setor. Questões como concentração portuária, custo de frete, limitações de armazenagem e gargalos de infraestrutura impactam diretamente previsibilidade, prazo e custo final ao produtor.
Em um ambiente de maior volatilidade global, logística deixou de ser apenas uma operação de suporte e passou a representar um fator estratégico de competitividade.
Empresas que conseguem antecipar demanda, planejar estoques, integrar melhor sua cadeia e operar próximas ao cliente tendem a capturar vantagens importantes em eficiência e nível de serviço.
5. Como a Santa Clara está posicionada em relação a tecnologias como biológicos, fertilizantes de maior eficiência e soluções customizadas?
A agricultura vive uma transformação importante, cada vez mais orientada por eficiência, sustentabilidade e integração tecnológica. Nosso posicionamento acompanha diretamente essa evolução.
Avançamos de forma consistente no desenvolvimento de fertilizantes especiais, bioinsumos e soluções integradas de manejo. Por meio da Inflora Biociência, ampliamos nossa atuação no mercado de Biodefensivos e insumos biológicos com foco em tecnologias que entreguem performance agronômica real e estabilidade de resultado em campo.
Também estamos investindo em soluções de maior eficiência nutricional e em customização alinhada à agricultura de precisão. Acreditamos que o futuro do setor está na integração entre nutrição, biologia e tecnologia aplicada ao manejo.
6. Como a empresa tem se preparado para mitigar a volatilidade internacional e garantir previsibilidade no fornecimento?
A volatilidade internacional passou a ser uma variável estrutural do setor, exigindo das empresas maior capacidade de antecipação e gestão de risco.
Nossa estratégia está baseada em diversificação de origens, planejamento de suprimentos, fortalecimento de parcerias estratégicas e desenvolvimento de tecnologias menos expostas às oscilações globais.
Além disso, vemos um avanço importante de soluções baseadas em inovação local, especialmente em bioinsumos e fertilizantes especiais, que contribuem para reduzir dependência de cadeias internacionais concentradas.
A proximidade com clientes e parceiros também é fundamental para aumentar a previsibilidade e construir relações mais resilientes ao longo da cadeia.
7. A empresa projeta mudanças no mix de produtos diante de um produtor mais seletivo?
Esse movimento já está acontecendo de forma bastante clara no mercado.
O produtor brasileiro está cada vez mais orientado ao retorno sobre investimento por hectare, priorizando soluções que entreguem eficiência, estabilidade e previsibilidade agronômica.
Isso não significa necessariamente redução de uso, mas uma adoção mais estratégica e tecnicamente orientada. Nesse contexto, tecnologias de maior valor agregado tendem a ampliar participação no mix.
Para o Grupo Santa Clara, esse cenário reforça nosso posicionamento em inovação, diferenciação tecnológica e geração de valor ao produtor. Os fertilizantes especiais e os bioinsumos devem ocupar um papel cada vez mais relevante na estratégia produtiva da agricultura brasileira.
GlobalFert, 14/05/2026



