TERRA POBRE, TERRA RICA: A novíssima fronteira da mineração
Santa Quitéria fica no sertão cearense, a 212km de Fortaleza. E não tem nos seus índices socioeconômicos indicadores que a projetem com relevância no panorama regional. Maior município em extensão territorial do estado, cerca de 34% dos seus 42.763 habitantes se enquadram na faixa de extrema pobreza , com renda média per capita de R$ 70. O percentual dos muito pobres é quase o dobro da média estado (17,78%).
No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ocupa o 66º lugar entre as 184 cidades do Ceará, posição que cai para o número 139 quando o índice mede o desenvolvimento municipal (IDM). Até o fim de maio, Santa Quitéria estava na lista dos 40 municípios onde menos choveu no estado. Como teve 85% da safra perdida em 2012, vive sob estado de emergência por conta da estiagem.
A economia é dependente dos empregos no setor público: cerca de 1,8 mil do total de 3.500 existentes, segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). A cidade depende das transferências de recursos federais e estaduais, entre elas aposentadorias e programas sociais, além de uma fábrica de calçados paulista que emprega cerca de 300 pessoas. Enfim, Santa Quitéria estaria fadada à quase estagnação, não fosse por um fato: sob o solo do município, está localizada a maior jazida de fosfato e urânio do Brasil. Ainda desconhecida por muitos, ela foi descoberta em 1976, e a previsão é de que comece a ser explorada em 2015.
O projeto de construção da usina de Itataia, como é conhecida, vai significar um investimento de US$ 350 milhões. “A estimativa é de que o empreendimento gere 3 mil empregos diretos na região, transformando toda a estrutura socioeconômica da região”, avalia o superintendente de Desenvolvimento de Projetos na Área de Recursos Minerais das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Adriano Maciel Tavares.
O impacto do empreendimento não será medido apenas na geração de empregos. A vocação agrícola faz do Brasil grande comprador de fertilizantes, como fósforo, nitrogênio e potássio. Segundo Tavares, o país importa 50% de todo o fosfato que utiliza, 60% do nitrogênio e 90% do potássio. Com a meta de produzir 240 mil toneladas/ano do fertilizante fosfatado, a usina de Itataia representará a redução em cerca de 10% da dependência do país em relação ao produto.
O ácido fosfórico custa US$ 1 mil por tonelada, em média, o que estima uma produção de US$ 240 milhões apenas no projeto. “Depois de montado, ele vai exigir o estabelecimento de empresas no entorno da jazida para transformar o material em fertilizante”, explica o superintendente do INB.
Classificado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como estruturante, o projeto da usina de Itataia é estratégico para o país. Antes de produzir o fertilizante, é necessário descontaminar o ácido fosfórico. O trabalho resulta em um subproduto radioativo, o urânio. “A estimativa é de que sejam produzidas 1,5 mil toneladas de urânio por ano, elemento usado na geração de energia nuclear”, acrescenta Tavares.
A exploração de urânio é de monopólio da União. Por não produzir fertilizantes, o INB se associou à empresa Galvani para explorar a jazida. Com duas usinas de energia nuclear em operação (Angra I e II) e uma terceira em construção (Angra III), a produção em Itataia será mais do que suficiente para suprir a demanda de urânio do país.
Para Adriano Tavares, o projeto de Itataia está em implantação. “Estamos ainda na primeira etapa. O licenciamento de uma usina como essa é um processo longo, de um a dois anos”, detalha. O superintendente prevê que o licenciamento do projeto saia até meados de 2013. Após essa etapa, serão necessários mais dois anos para o início das operações.
Tavares lembra que o país tem planos de construir novas usinas, mas por enquanto o assunto está adormecido, em virtude dos reflexos negativos provocados pelo acidente na Usina de Fukushima, após os últimos terremotos no Japão em 2011. De acordo com ele, o urânio é uma commoditie bastante comercializada pelo mundo, com valor de US$ 100 a US$ 110 por quilo.
Hoje, a demanda mundial do produto é de 60 a 70 milhões de toneladas por ano. Os maiores consumidores de urânio são os EUA, nas mais de 100 centrais nucleares, e a França, onde 70% da energia é gerada através desse modelo. Os maiores produtores são Canadá, Cazaquistão e Austrália.
Santa Quitéria Notícias, 27,06,2012



