Produção

Navalha na Carnalita

A Vale adiou para março de 2015 a decisão final sobre o início da construção do maior projeto brasileiro de cloreto de potássio, o Carnalita, em Sergipe. Tudo indica que não vai sair nos próximos 13 anos.

O projeto Carnalita, batizado em homenagem ao minério de mesmo nome, visa explorar jazida do minério também do mesmo nome, um cloreto hidratado de potássio e magnésio. É um minério de cor rosada como um filé mignon. Mas o nome não vem da cor similar ao da carne vermelha, mas do engenheiro de minas prussiano Rudolf Von Carnall, primeiro a descrever o mineral.

Esse primo pobre da silvinita, minério que tem quase o dobro do K2O contido na carnalita, será extraído em minas por dissolução. Isso significa que água quente será injetada nas jazidas, formando cavidades e dissolvendo os sais que estão lá. A solução saturada saíra por outro furo e, simplificadamente, vai ser secada, tratada, cristalizada, britada e peneirada. Isso porque o mercado brasileiro consome mesmo é cloreto de potássio granulado.

Por algumas dessas características, o projeto tem uma montanha de riscos tecnológicos, de custos, de receita e institucional. O primeiro é bem simples. Por mais que se faça testes de bancada e se construa plantas de demonstração, a carnalita nunca foi extraída dessa forma nessa escala. A meta é produzir 1,2 milhão cloreto de potássio com 60% a 62% de K2O.

Neste caso, a Vale não está sozinha. Existem projetos similares e não falo aqui somente daquele que a mineradora pôs à venda na Argentina, o Potasio Rio Colorado. No Canadá, uma júnior chamada Karnalyte tenta pôr em operação uma mina parecida. Curiosamente, a empresa canadense disse que precisa de US$ 630 milhões para produzir 625 mil toneladas por ano em sua primeira fase. A Vale diz que precisa de 1,8 bi para 1,2 milhão de toneladas. Nas minhas contas, a júnior é 50% mais eficiente que a major brasileira.

Mas as coisas não vão bem para a canadense. Demitiram o CEO em maio e não tem boa perspectiva devido ao segundo problema.

O preço do potássio, que nunca teve grandes sobressaltos, chegou a estratosféricos 870 dólares por tonelada em 2009, para o preço de referência do mercado, o cloreto em pó (standard) embarcado em Vancouver. Quando o PRC e a Carnalita andavam a passos largos em 2011, estava em quase 500 dólares. Depois que a Uralkali desmontou o cartel soviético de fertilizantes, o preço voltou a patamares anteriores em US$ 300. A agricultura e a balança comercial brasileira agradecem.

A exemplo do que fez com a área de logística, quando se livrou de muitos ativos indesejados, ou non core como dizem os caros consultores da empresa, a área de fertilizantes deve ter destino semelhante.

Da mesma forma que a LogIn hoje não é mais controlada pela Vale, o que aconteceu somente anos depois do seu IPO, a oferta inicial de ações da empresa. A Vale Fertilizantes vai passar por um processo similar. Em breve, via IPO ou pela venda direta de participação, a Vale Fertilizantes vai mudar de nome e de dono. Pode muito bem virar a FertIn.

Outro efeito disso é que vai acabar abrindo um processo, em tribunal de arbitragem, contra a antiga dona, como a LogIn fez no início do ano.

Custos. Esse vai ser o terceiro problema para tirar a carnalita do subsolo sergipano. O processo consome muita energia para aquecer a água que é injetada na jazida. Energia está tão cara, e em falta, no Brasil que a área de ferroligas (outra área eletrointensiva) da Vale reduziu a produção para vender energia. Ferbasa, Alcoa e Votorantim adotaram medidas parecidas.

Considerando a pequena representatividade política de Sergipe, o falecimento de uma grande liderança do Estado, Marcelo Deda; e a exaustão da mina de silvinita da Vale no Estado dentro de dois ou três anos, não vejo nada que impeça a mineradora de se despedir de Sergipe e deixar para a futura FertIn a decisão de levar adiante ou não o empreendimento.

No fim do ano passado, me encontrei com um dos fornecedores desse projeto. Ele estava muito animado. Como a redução do pessoal que não é da área de minério de ferro continua na Vale, mesmo que a conta-gotas, acredito que o projeto vai continuar em banho-maria.

O projeto Carnalita começou a ser estudado seriamente em 2003 com a promessa de iniciar a produção este ano. Mas, visto que a aprovação pelo Conselho foi adiada mais uma vez, podem acrescentar uns anos até que algo aconteça.

Notícias de Mineração, 29/07/2014

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