Culturas

Adubação fluida ganha espaço no Brasil

Quando planejava o plantio da safra 2013/14, o produtor rural Nelson Schreiner, das fazendas Estância São Carlos e Estância Primavera, entre Itapeva e Taquarivaí, no sudoeste paulista, viu-se na chamada sinuca de bico. Agricultor tradicional, daqueles que espalham um pouco de terra na palma da mão e sabem exatamente a quantidade de nutrientes disponível no solo, ele se viu desafiado a testar em suas lavouras de soja e milho uma nova forma de adubação: o adubo líquido, ou fluido, como preferem os especialistas.

Aos 77 anos, nascido e criado na lavoura, Schreiner é exemplo de agricultor que não parou no tempo: pioneiro em plantio direto a campo no estado de São Paulo, campeão estadual de conservação de solo na década de 1980, adepto das inovações tecnológicas, sempre esteve na vanguarda da produção agrícola da região. Ao longo de décadas, trabalhou com adubo granulado, produto confiável e de resultado quase infalível. Por que se aventuraria a trocar o velho e bom adubo sólido pelo caldo de cheiro estranho?

Acontece que o desafio partia do próprio filho, o engenheiro agrônomo Nelson Schreiner Júnior, um dos sócios da Nutriceler, empresa que se especializara em soluções nutricionais para a lavoura. “Ele tinha esse adubo (fluido) e já vinha fazendo testes há dois anos com bons resultados, então resolvi experimentar.” Não deu outra: hoje, 100% da área de soja e milho, cerca de 800 hectares, são plantados com adubação fluida. “No começo, tive trabalho apenas para acertar os aplicadores.

Depois, fazer o plantio virou uma facilidade, com menos volume para transportar, menos horas de máquinas, menos pessoal. Estou começando a usar também no trigo”, disse. Nas lavouras, ele contabilizou ganhos de produtividade entre 10% e 15%. “O adubo vai direto na raiz, é a comida na boca da planta”, comparou.

São Tomé aprovou

Ainda pouco usada no Brasil, a adubação fluida vem ganhando adeptos nas principais regiões produtoras de grãos do país. Lavouras de milho e soja de São Paulo, Paraná e Minas Gerais já são alimentadas pelos formulados líquidos que juntam nutrientes indispensáveis, como nitrogênio, fósforo e potássio, a aminoácidos e extratos com propriedades indutoras do desenvolvimento das plantas.

A tecnologia entrou nas grandes áreas de cultivo do Centro-Oeste e migrou também para a região sul do país. Em Santo Augusto, noroeste do Rio Grande do Sul, quando a tecnologia foi oferecida ao produtor rural Osmar Menegon, ele se fez de São Tomé: queria ver para crer.

Assim, plantou duas áreas com 25 hectares de trigo, uma ao lado da outra. Numa, usou o adubo convencional, na outra a adubação fluida. “O que a gente notou é que as plantas com o adubo líquido germinaram mais rápido e tiveram um bom arranque inicial. Comparamos as raízes e pudemos ver que elas estavam mais densas que no sistema convencional.”

Para melhor se convencer, ele aplicou o novo manejo em 20 hectares de milho, 40 de soja e 40 de feijão. “Observamos que a raiz da soja com adubação fluida teve penetração maior no solo, enquanto a do manejo convencional ficou mais espalhada na superfície.” Menegon notou ainda um aumento na nodulação da raiz, que ele atribuiu ao rizóbio – uma bactéria contida na adubação fluida que forma nódulos capazes de extrair e transferir para a planta o nitrogênio do ambiente. Produtor experiente, o gaúcho buscou informações antes de experimentar a nova técnica. “Vi na internet que 40% da soja nos Estados Unidos já são cultivados com essa adubação. Mesmo assim, comecei a experimentar em talhões pequenos.

Tem tanto gato ensacado por aí que a gente não pode arriscar”, comentou. Quando pôs na balança o trigo do plantio inicial, a produção da área com adubação fluída tinha sido 9% maior, apesar de a lavoura ter sofrido perdas pelo excesso de chuvas. Já na área de feijão, o ganho foi de 14,2%. Quando falou com a Agro DBO, ele ainda não tinha colhido a soja, mas já notava visualmente uma boa diferença em favor da área manejada. “Estou preparando tudo para fazer a próxima safra com 50% da área, de 290 hectares, com essa tecnologia”, disse.

A 1,6 mil quilômetros da fazenda de Menegon, em Pires do Rio, sul de Goiás, o agricultor Vanderson Eder Sasvelli experimentou o mesmo pacote tecnológico numa área de 30 hectares de soja. A produção ainda está no campo, mas ele já fez uma comparação: as plantas tratadas carregaram com até 35 vagens, o dobro do que verificou na lavoura convencional.

“A impressão é de que a produtividade será maior, mas isso quem vai dizer é a colheitadeira.” O que Sasvelli já sabe é que, ao invés de encher um caminhão com 10,5 toneladas de adubo para a área de 30 hectares – 350 kg por hectare – ele usa uma caminhoneta para levar os 750 litros de adubo fluido, ou 25 litros por hectare. “Só essa economia justificaria o uso da tecnologia, mas acho que na colheita o ganho vai ser ainda maior.”

O pacote tecnológico da adubação fluida atrai principalmente agricultores de soja situados em regiões mais distantes da indústria de adubos, como o Centro-Oeste. O custo do frete pela redução no volume do insumo transportado torna-se, de cara, um diferencial muito atraente em favor desse manejo.

A redução no espaço de armazenagem também foi levada em conta por Sasvelli. “O adubo granulado ocupa um grande espaço no armazém, que a gente poderia estar usando com soja e milho. Já os galões com o fertilizante líquido podem ser armazenados num cantinho.” Ele também observou que a operação de plantio torna-se mais prática, usando os equipamentos adequados: não há necessidade de mobilizar tratores e carretas para distribuir o adubo nas áreas a serem trabalhadas. Consequentemente, o pisoteio no solo é menor, há menos gasto de combustível e menor quantidade de poluentes é liberada na atmosfera.

Inspiração americana

Vanderson Sasvelli é um dos produtores rurais que aderiram ao projeto Pioneiros, criado e desenvolvido pela empresa Nutriceler, de Itapeva, interior de São Paulo, para ampliar o uso da adubação fluida no Brasil. O programa foi inspirado em técnicas norte-americanas e teve início no sudoeste do Estado de São Paulo na safra 2013/14, numa área de apenas 800 hectares de soja.

Na safra seguinte, com a adesão de outros produtores paulistas e, ainda, dos estados do Paraná, Minas Gerais e Goiás, o plantio se estendeu a 3 mil hectares. Na safra 2015/16, a área de soja plantada com essa linha de fertilizantes fluidos elevou-se para 16 mil hectares, com a adesão de produtores do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Bahia.

O diretor da Nutriceler, Nelson Schreiner Júnior, acredita que na safra seguinte apenas a área de soja atendida pela empresa chegará perto de 150 mil hectares. Ele conta que no início o produto era importado dos Estados Unidos e apenas distribuído no Brasil. “Há dois anos, começamos a fazer o fertilizante aqui, importando apenas a matéria-prima. Como a formulação leva água, o volume importado ficou menor e conseguimos reduzir o custo para o produtor.” Os componentes são produzidos pela Helena Chemical Company, fabricante de insumos para a agricultura nos EUA, parceira da Nutriceler no Brasil.

De acordo com Schreiner, o pacote já foi usado com bons resultados na cana-de-açúcar, plantações de laranja, café, frutas e olerícolas. Mas a grande aposta da empresa é na soja, já que os componentes da fórmula oferecem ganhos adicionais para essa lavoura, como explica. “A soja depende do nitrogênio para produzir. A gente lança na semente um rizóbio, uma bactéria que forma nódulos na raiz.

Esses nódulos transferem o nitrogênio da atmosfera para o sistema radicular. Já vimos raízes com até 40% mais nódulos que no sistema convencional.” A tecnologia ajuda também a liberar o fósforo fixado no solo. Os terrenos cultivados com soja são, geralmente, trabalhados há muitos anos, com grandes depósitos desse mineral que se tornam indisponíveis para a plantas. Um aditivo no adubo fluido recupera esse ingrediente importante para a lavoura.

Gargalo a vencer

Segundo Schreiner, as formulações da linha de fertilizantes trazem ingredientes na medida certa para as plantas, evitando o desperdício. A aplicação é feita por meio de plantadeira adaptada com um ou dois reservatórios para os produtos contendo fósforo e potássio, e ainda, conforme o pacote, ingredientes à base de ácidos húmicos, fúlvicos, extrato de algas e aminoácidos.

Essa combinação de fertilizantes é aplicada por meio de mangueiras e bicos injetores no sulco de plantio, no momento da semeadura. Como o volume da aplicação é 90% menor, há um ganho de tempo, já que os reservatórios operam em longos períodos sem necessidade de reabastecimento.

Para o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Solos, José Carlos Polidoro, a adubação fluida tem um grande potencial, mas ainda enfrenta o gargalo da falta de equipamentos específicos para aplicação. “Nos Estados Unidos, a aplicação de NPK de forma fluida está bastante avançada, pois eles fazem isso há anos.

No Brasil, o uso do granulado está muito consolidado e a mudança de tecnologia esbarra na falta de máquinas e equipamentos.” Polidoro acredita que o futuro das grandes lavouras brasileiras passa pela adubação fluida. “É inegável que a aplicação no sulco quase zera as perdas dos nutrientes, especialmente do nitrogênio. A distribuição pode ser feita em doses homeopáticas, distribuindo apenas o que a planta vai usar, sem desperdícios. O adubo fluido reage mais rapidamente no solo e a soja, principalmente, aproveita bem o fósforo.

A arrancada inicial da lavoura fica interessante.” Ele considera que o custo dessa adubação ainda é alto no Brasil. “Tudo é importado e o transporte de alguns produtos, como a amônia, exigem cuidados extras e elevam o custo. Mas é o futuro: nossa agricultura está em disparada e o consumo de adubo cresce de 4% a 6% ao ano, até três vezes mais que em outros países agrícolas, e apesar da crise. É preciso que a indústria se prepare, pois o adubo fluido tem grande potencial.”

Aposta tecnológica

Quando decidiu testar a adubação fluida, o agricultor Pedro Paulo Mariano, de Itapeva (SP), não teve dúvida: “Fiz 100% da área de soja, não deixei nem testemunha”, contou. O plantio de 260 hectares, antes tratados com 100 toneladas de adubo granulado, consumiram pouco mais de 2 mil litros do formulado líquido.

Mariano viu os efeitos da mudança na lavoura. “A nodulação via solo foi muito boa, houve aumento na atividade de micro-organismos e as plantas saíram mais encorpadas. Espero um aumento de até 15% na produtividade.” Ele só enfrentou algum percalço na adaptação das plantadeiras. “Essa parte deu um pouco de trabalho.”

O gargalo dos equipamentos, porém, está com os dias contados, segundo Schreiner. “Há cinco anos, havia poucos fabricantes de máquinas adaptadas para adubação fluida, então decidimos contratar um fabricante para atender os produtores interessados em nossa tecnologia.” Segundo ele, agricultores de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins e Goiás já usam máquinas com sistemas desenvolvidos exclusivamente para a adubação fluida.

A empresa organizou viagens de produtores interessados aos Estados Unidos, um dos pioneiros no uso da adubação fluida. Produtores de soja, cana-de-açúcar, hortícolas e frutas participaram dessas viagens. Sasvelli foi um deles. “Os americanos usam a tecnologia há mais tempo e lá eles fazem a adubação antes do plantio.

Tinha dúvida se o sistema teria o mesmo resultado aqui, com a diferença de clima e tudo o mais. Por isso iniciei numa área pequena, mas vou ampliar. No próximo plantio já serão 200 hectares.”

A empresa Terrena, com sede em Patos de Minas (MG), vislumbrou esse potencial há mais de duas décadas. Em 1992, a empresa instalou a primeira fábrica de fertilizante fluido comercial em Minas Gerais. Em parceira com a Embrapa, a empresa atuou na difusão da tecnologia para a região do Cerrado mineiro.

A adubação fluida é oferecida como opção para os produtores, já que a Terrena também mantém na região duas plantas para produção de adubos sólidos. De acordo com a empresa, a adubação fluida possibilita o fornecimento balanceado de nutrientes à lavoura, o que é essencial para uma boa produtividade.

Para o pesquisador da Embrapa, a busca de novas tecnologias de fertilização das lavouras é fundamental para o Brasil. Ao mesmo tempo em que bate recordes de produção, ultrapassando a barreira de 210 milhões de toneladas anuais, o país aumenta a dependência do adubo importado.

Das 28 milhões de toneladas de fertilizantes consumidas em 2015, cerca de 75% vieram de fora. No caso do potássio, mais de 90% do nutriente são importados. Segundo ele, a agricultura nacional posiciona o país na quarta posição entre os maiores consumidores de fertilizantes, atrás apenas da China, Índia e Estados Unidos.

Polidoro faz parte da Rede FertBrasil, programa da Embrapa voltado para o uso eficiente de fertilizantes. A rede é formada por cerca de 130 pesquisadores de 20 centros de pesquisas da Embrapa, em parceria com 73 instituições e 22 empresas privadas do setor de fertilizantes. “Estamos trabalhando muito nisso e as empresas estão dispostas a investir fortemente nessa tecnologia.” Ele vê na adubação fluida um canal para a introdução de novas fontes de nutrientes na agricultura brasileira. “É essencial racionalizar a aplicação de insumos nas lavouras e a adubação fluida é um bom caminho nessa direção.”

Em defesa do granulado

Para o diretor-executivo da Anda – Associação Nacional para Difusão de Adubos, David Roquetti Filho, a adubação fluida é uma opção aos adubos sólidos, mas, ao lado das vantagens, como a maior uniformidade na lavoura e a facilidade de aplicação, também tem algumas desvantagens, como o fato de carregar água e exigir equipamentos especiais para aplicação. “Isso representa custos extras com transporte e armazenamento, além de investimentos adicionais.

Dependendo da escala da operação, da garantia de suprimento local e do preço do fertilizante na fazenda, o investimento em equipamentos pode ser compensado”, disse. Ele reconhece que os fertilizantes fluidos, pela uniformidade de aplicação, podem levar a aumentos de eficiência no uso de nutrientes, porém, aplicações bem feitas de adubos sólidos também permitem atingir bons níveis de eficiência. “Assim, a opção por uma ou outra dependerá de condições locais, da existência de fornecedores de matérias-primas e equipamentos, e da preferência dos agricultores”, pontua.

Segundo Roquetti Filho, no mercado americano, onde a adubação fluida tem uma boa fatia do mercado, o maior crescimento dos fluídos geralmente ocorre em substituição a formulações baseadas em amônia anidra (gás), muito popular no meio-oeste americano devido ao baixo custo, mas que vem sendo substituída, por questões de segurança ligadas ao uso da amônia concentrada. 

Conforme diz, os nutrientes aplicados e, muitas vezes, os compostos usados nas duas formas são os mesmos. Ele cita, como exemplo, que a formulação nitrogenada fluida mais comum, o uran, é uma mistura de ureia e nitrato de amônio, as duas principais fontes de nitrogênio na forma sólida. “O sucesso da adubação fluida dependerá das estratégias de empresas do setor para achar soluções que compatibilizem custo, eficiência de aplicação e eficiência de uso de fertilizantes no campo.”

 

DBO, 04/01/2017

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo