Culturas

Cautela é palavra de ordem no campo

Pelos próximos 12 ou 18 meses, o mercado internacional de soja estará pressionado pela grande safra norte-americana, em fase final de colheita, e pela produção do Hemisfério Sul, ora em plantio, que responde por 55% da oferta mundial. A informação é do especialista em commodities agrícolas Anderson Galvão, da consultoria Céleres.

Galvão recomenda que os agricultores tenham cautela, controlem custos, evitem contrair dívidas e caprichem ao máximo na condução da lavoura do ciclo 2014/15, para tentar garantir a melhor produtividade possível. “A chance de prejuízo nesta safra deve ser considerada”, destaca. Ele alerta que muitos arrendatários de terras não conseguirão pagar as contas.

De acordo com ele, só uma alta do dólar frente ao real, nos próximos meses, poderá trazer algum alívio. Como a soja é uma commodity, a cotação acompanha a variação da moeda norte-americana. “Se o dólar voltar para R$ 2,20, com certeza muita gente vai ficar no vermelho”, prevê. Os preços médios atuais, em moeda brasileira, já estariam R$ 20 abaixo dos níveis alcançados, em 2013, refletindo um mercado retraído, fator que trava a comercialização.

O especialista lembra que há um crescimento contínuo e substancial da produção de soja no mundo, nos últimos anos, oferta que só foi abalada, em 2012, quando as lavouras do Meio-Oeste dos Estados Unidos – principais produtores mundiais – passaram pela pior seca em 50 anos. Como consequência, os estoques globais que já vinham com pouca margem sofreram desequilíbrio e os preços atingiram patamares recordes.

Ele adverte que o momento atual é diferente. Ele explica que os EUA acabam de colher “uma safra excepcional, que reequilibrou os estoques”. A situação deve se complicar um pouco mais, em 2015, com a entrada da soja do Hemisfério Sul (cujos principais produtores são, pela ordem, Brasil, Argentina e Paraguai) e, ainda, pela tendência de expansão do plantio da oleaginosa nos Estados Unidos na próxima temporada, avançando sobre áreas antes destinadas ao milho, cujas cotações são desanimadoras.

Galvão afirma, no entanto, que a tendência de preços internacionais em queda para a soja ainda não está definida, porque o Brasil enfrenta dificuldades para plantar a safra 2014/15 em razão da falta de chuva na maior parte dos Estados produtores, incluindo o Paraná. Segundo ele, foram plantados apenas 18% da área projetada para o País, até o momento, quando na média dos últimos cinco anos, a esta altura, pelo menos 30% já estavam concluídos.

O consultor comenta que o plantio, no Brasil, está com um mês de atraso e pode haver problemas até a colheita. Embora as projeções apontem para uma safra 2014/15 ao redor de 91 milhões de toneladas, que seria recorde, analistas já começam a duvidar.

Quanto ao milho, Galvão diz que os próximos dez anos serão de profundas transformações para o mercado do cereal. Tem havido, a exemplo da soja, uma forte expansão da oferta mundial e só os EUA saíram de um volume ao redor de 220 milhões de toneladas em 2002/03 para as atuais 367 milhões. Segundo ele, a China vai passar a ser uma grande importadora do cereal, repetindo o que já faz em relação à soja. “Precisamos nos preparar para esse grande mercado”, frisa.

Alertas

Na semana passada, Anderson Galvão esteve em Maringá, onde ministrou palestra sobre o atual cenário e as tendências da soja no Brasil e no mundo. Ele falou para cerca de 300 produtores, que participaram da terceira etapa do Fórum CBN de Agronegócios no Recinto de Leilões Ermelindo Bolfer do Parque Internacional de Exposições Francisco Feio Ribeiro. A iniciativa foi da Rádio CBN Maringá. 

Demanda Mundial em Expansão 

Apesar das perspectivas pouco animadoras para o mercado da soja, no momento, o analista Anderson Galvão enfatiza que a demanda pela oleaginosa cresce, em média, 3,5%, ao ano, no mundo. “Mesmo com a desaceleração da economia, a China continuará sendo uma grande importadora, funcionando como uma balança para esse mercado”, destaca.

Por causa do processo de urbanização em países como China e Índia, mais de 250 milhões de pessoas, por ano, aumentam a renda “e a primeira coisa que fazem é se alimentar melhor”, ressalta. Segundo Galvão, a agricultura tem mercado garantido para os produtos e o principal desafio é aumentar a produtividade para acompanhar o crescimento da população mundial.

Em 1965, havia 0,40 hectare (4 mil metros quadrados) para produzir alimentos, por pessoa, no mundo. Em 2014, o espaço diminuiu para menos da metade – 0,19 (1,9 mil metros quadrados). A área plantada atualmente é de 1,42 bilhão de hectares e os espaços para expansão ficaram restritos. Em muitas novas fronteiras, os custos não compensam.

Comparando com os patamares de 2008, os preços atuais dos alimentos ainda estão 40% mais caros no mundo, mas a tendência é de que haja uma redução por causa de fatores como a queda das cotações do petróleo. “O custo de produção agrícola vai dar uma acalmada no Brasil”, declara, lembrando que os preços do petróleo influenciam diretamente nos custos com fertilizantes.

O Diário, 04/11/2014

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