Mercado

Choque do Petróleo ocasiona queda no preço dos fertilizantes

A queda dos preços internacionais do petróleo observada desde meados de 2014 foi o principal choque econômico do ano. O movimento, que teve determinantes do lado da oferta e da demanda, foi relativamente rápido e bem expressivo: redução de 49% para o WTI e 48% para o Brent, entre o pico, observado em meados de junho, e o piso visto um pouco antes do feriado de Natal.

Inevitavelmente, analistas e investidores passaram a dedicar esforços na compilação das listas de vencedores e perdedores, entre países e companhias. Vários estudos têm sido produzidos, e um dos mais interessantes apareceu no blog do FMI, o iMFdirect, sob autoria de Rabah Arezki e do economista chefe da instituição, Olivier Blanchard (www.blog-imfdirect.imf.org/2014/12/22/seven-questions-about-the-recent-oil-price-slump/).

O impacto geral, estimado pelos autores, será um aumento de 0,3 a 0,7% do PIB mundial, em 2015, em comparação a um cenário hipotético no qual o preço do petróleo teria ficado estável. Evidentemente, tal impacto será distribuído pela economia global de forma heterogênea, dependendo da importância da matéria prima na estrutura econômica de cada país e dependerá também do comportamento dos preços ao longo do ano – os mercados parecem esperar estabilidade em torno dos patamares atuais, mas com prognósticos envoltos em mais incerteza que o usual.

Quanto ao perde-ganha imediato, os economistas do FMI dividem a economia mundial em dois grandes grupos, dependendo da posição no comércio internacional de petróleo. Os importadores líquidos vão ser beneficiados por um efeito-renda positivo, queda nos custos dos insumos (não apenas combustíveis, mas também fertilizantes) e efeito favorável sobre as contas externas. Por outro lado, os grandes exportadores vão ter impactos negativos sobre contas externas e fiscais.

Os impactos imediatos sobre os preços de ativos têm sido mais visíveis, excetuando-se o setor expecificamente, nos mercados de moedas, notadamente o colapso do rublo, bem como a pressão verificada em outras praças, da Colômbia à Noruega, cujo denominador comum é a importância do petróleo na pauta exportadora. Algum impacto sobre os bancos que tiverem exposição mais destacada a esse setor não pode ser descartado, ainda que seja, segundo o estudo do FMI, limitado.

Do ponto de vista das reações de política econômica, sempre um foco de preocupação importante no Fundo, os desafios e as consequentes respostas são também distintos. Em áreas econômicas, como Europa e Japão, que se deparam com riscos de deflação, as autoridades monetárias terão que fazer esforço redobrado para ancorar as expectativas inflacionárias em território positivo.

O desafio maior, sem dúvida, cabe aos grandes exportadores de petróleo. Aqueles que administraram o período de bonança de forma prudente poderão implementar um certo relaxamento da política fiscal, que atuará de forma anti-cíclica, ao passo que os que atuaram de forma menos previdente, e a Venezuela parece ser o maior, ainda que não o único exemplo, terão provavelmente que lidar com a indigesta combinação de ajuste fiscal, depreciação cambial e inflação alta.

Muitos países, na visão de Arezki e Blanchard, poderão utilizar a queda do petróleo para reduzir os subsídios ao consumo de gasolina e lubrificantes, além de permitir a adoção de impostos sobre combustíveis – e o Brasil se enquadra nesse exemplo.

No caso brasileiro, até que as eventuais receitas das reservas do pré-sal comecem a fluir, a posição segue sendo de importador líquido de petróleo e derivados. O déficit comercial nesse segmento na verdade se intensificou nos últimos anos, como reação às políticas governamentais de apoio ao setor automotivo e ao consumo de gasolina. O déficit máximo foi atingido em outubro de 2013, cerca de US$ 24 bilhões em 12 meses, e atualmente roda próximo a US$ 18 bilhões. Assim, todo o resto constante, a queda dos preços internacionais de petróleo e derivados deve ajudar nossa balança comercial e, por tabela, o real, ainda que de forma provavelmente limitada.

A redução dos preços internacionais dessa matéria-prima ajuda também no front inflacionário. Há menos pressão direta por aumentos dos preços da gasolina e outros combustíveis (embora outros elementos dos custos das empresas de transporte, como mão de obra, sigam pressionados). Além disso, toda a gama de derivados de petróleo e produtos substitutos tende a ter dinâmica de preços mais contida.

No que tange à estabilidade financeira, os problemas do setor são indissociáveis das dificuldades da Petrobras e já vêm repercutindo sobre toda a cadeia produtiva. Estas, além da difícil situação experimentada por várias empresas de construção, têm potencial para gerar aumentos relevantes da inadimplência bancária, em especial em regiões nas quais a atividade petrolífera e correlatas empregam contingentes importantes.

Por último mas não menos importante, a queda do preço do petróleo pode ter impactos fiscais significativos, em especial sobre estados (Rio de Janeiro e Espírito Santo em particular) que vêm se beneficiando das receitas de royalties.

Em suma, pesando os vários efeitos, parece que, em especial pelos ganhos do lado da balança comercial e inflação, o movimento recente dos preços internacionais do petróleo tende a ser marginalmente positivo para a nossa economia em 2015, ainda que isso signifique, a médio prazo, que a riqueza esperada do pré-sal possa ser menor e, obviamente, mais incerta.

Valor Econômico, 08/01/2014

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo