Com sede ao pote
Produtores rurais antecipam compra de adubo para a safra 2013/2014 a fim de aproveitar boa relação de troca
Pela primeira vez na história do agronegócio brasileiro, o produtor está antecipando em mais de um ano as compras de fertilizantes. Os primeiros negócios para a safra 2013/2014 começaram a sair do papel, principalmente pelas mãos dos sojicultores do Centro-Oeste e do Cerrado do Nordeste. “O volume ainda não é tão expressivo porque as próprias companhias têm dificuldade em formar o preço”, avalia André Pessôa, diretor da Agroconsult. Como os preços das matérias-primas ao longo do ano de 2013 ainda não estão definidos, as empresas estão com certa resistência em fazer esse negócio, pois elas não sabem qual será de fato o custo delas.
Para o empresário rural Blairo Maggi, do Grupo Maggi, é natural que o produtor compre adubo em antecipação. “Se ele fizer as contas de qual preço que vai receber pela venda da soja em 2014 e qual o preço que pagará pelo fertilizante se comprar agora, verá que vale a pena”, diz Maggi. Segundo ele, para o produtor, o mais fácil é plantar. “Todo o conjunto da operação é muito delicado e é onde o produtor necessita empreender maior empenho”, diz o empresário, cujo grupo já comercializou 50% de sua safra de soja 2012/2013 e 70% da safra de algodão.
Neste momento, a relação entre o preço da soja e o preço dos insumos está muito favorável ao produtor. “Essa é uma das melhores alternativas para o uso de recursos advindos da rentabilidade dessa safra”, avalia Pessôa.
“A relação de troca é bastante motivadora para o consumo e não vemos motivo muito forte para aumento de preço nos próximos meses”, diz Alfredo Fardin, diretor comercial da Heringer. De acordo com ele, como o Hemisfério Norte consome 90% da produção mundial de fertilizantes e o Hemisfério Sul apenas 10%, a pressão da demanda ao longo do ano é que faz com que os preços oscilem fortemente. “Trata-se de um mercado no qual o preço varia de acordo com a demanda, e não em função da produção”, analisa o diretor da companhia, que entre 1995 e 2011 cresceu 17% e hoje lidera as vendas no mercado nacional, com 5 milhões de toneladas em 2011.
Neste ano, o consumo de fertilizantes no Brasil ficará entre 29,2 milhões e 29,5 milhões de toneladas, com crescimento de 3,5% em relação ao volume entregue em 2011. “Esses aumentos são puxados pelas lavouras de grãos e pela cana-de-açúcar”, diz André Pessôa. Segundo cálculos feitos por David Roquetti Filho, diretor executivo da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda), os Estados do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) tiveram crescimento médio anual superior a dois dígitos no consumo de fertilizantes. O campeão foi o Piauí, cujo crescimento anual alcançou a marca de 19%; no Maranhão, o avanço no período chegou a 16,2%; e em Tocantins, 15%. Apenas como dado comparativo, a expansão brasileira foi de 5,8%.
O país já é o quarto maior mercado consumidor de fertilizantes do planeta, embora essa posição represente apenas 6% do consumo mundial do insumo: China (33%), Índia (17%) e Estados Unidos (12%), juntos, consomem 62% de todo o fertilizante mundial. Com um volume de importação que equivale a 75% do que consome, o Brasil se esforça para reduzir a dependência das compras externas. Para isso, as empresas ligadas à produção de nutrientes para fertilizantes planejam investir US$ 18,9 bilhões até 2017. Os novos projetos (confira o mapa abaixo) deverão elevar a produção nacional de nitrogênio, potássio e fósforo dos atuais 3,42 milhões de toneladas para 9,35 milhões de toneladas ao ano em 2017. No mesmo período, a demanda interna por nutrientes passará de 12,19 milhões para 14,73 milhões de toneladas. Hoje, a relação entre demanda e produção é de 28,1%. Com os novos investimentos, o Brasil passará a produzir 63,5% da demanda interna.
Entre janeiro e agosto de 2012, as entregas somaram 17,79 milhões de toneladas, indicando aumento de 4,8% em relação ao mesmo período de 2011, quando foram entregues 16,97 milhões de toneladas. O total de nutrientes (NPK) comercializados alcançou no período analisado 7,30 milhões de toneladas, alta de 4,7% em relação ao mesmo período de 2011, quando foram entregues 6.970 toneladas.
As entregas de fertilizantes nitrogenados (N) apresentaram aumento de 2,2%, para 1,91 milhão de toneladas, em 2012, em função da demanda das culturas de cana-de-açúcar, algodão, café, milho safrinha e arroz. Os fertilizantes fosfatados (P2O5) registraram aumento de 7,3%, para 2,58 milhões de toneladas, em 2012, com ênfase para as culturas de milho safrinha, algodão, cana-de-açúcar e uma aceleração nas entregas para safra de verão de soja/milho.
Já nos fertilizantes potássicos (K2O), houve alta de 4% – 2,80 milhões de toneladas em 2012. O Estado de Mato Grosso concentrou o maior volume de entregas de fertilizantes no período janeiro-agosto, atingindo 3,45 milhões de toneladas, seguido de São Paulo com 2,42 milhões de toneladas, Paraná com 2,27 milhões de toneladas e o Rio Grande do Sul, com 2 milhões de toneladas.
As importações de fertilizantes intermediários alcançaram 12,63 milhões de toneladas no período, em queda de 2,6% em relação ao mesmo período de 2011. As reduções observadas foram de 2,8% nos fertilizantes nitrogenados e de 3,8% nos potássicos, enquanto os fosfatados apresentaram elevação de 1,2%.
Os fertilizantes tendem a ganhar um papel cada vez mais decisivo no mundo, uma vez que a maior parte do aumento na demanda por alimentos que se projeta terá de vir do crescimento da produção em terras agrícolas já existentes. Estimativas da International Fertilizer Industry Association (IFA) indicam que nos próximos 50 anos, a agricultura mundial terá de produzir mais que a soma de todo alimento cultivado nos últimos 10 mil anos.
Globo Rural, 08/10/2012





