Premiada, pesquisa da Federal de Lavras enriquece alimentos e protege ambiente
Em nome da produtividade no campo, os níveis de nutrientes nos alimentos foram deixados de lado, prejudicando milhões de pessoas vítimas de desnutrição em todo o mundo. Na tentativa de reverter esse quadro, pesquisadores apostam alto na chamada biofortificação de alimentos, que pretende aumentar o teor dessas substâncias fundamentais para a alimentação humana e animal, por meio do manejo da adubação de culturas agrícolas. Em Minas Gerais, pesquisa inovadora na área, realizada por equipe de estudiosos da Universidade Federal de Lavras (Ufla) foi reconhecida pela comunidade acadêmica ao vencer o Prêmio Capes de Teses 2012.
De autoria do engenheiro-agrônomo e doutor em ciência do solo Sílvio Junio Ramos, a tese “Biofortificação, variação genotípica e metabolismo envolvendo selênio em alface e brócolis” revela a importância de investir na elaboração de fertilizantes enriquecidos que, além de garantir o aumento da produção agrícola, ofereçam maior teor de nutrientes para os alimentos. “Isso está sendo implementado nos Estados Unidos, Canadá, China, Inglaterra, Turquia, Finlândia, Austrália e Índia. O desafio agora é produzir fertilizantes para a adubação das lavouras que sejam capazes de aumentar a produção agrícola e proporcionar teores suficientes de minerais essenciais nos alimentos produzidos no Brasil”, afirma o especialista.
Conhecida como biofortificação agronômica, realizada por meio de adubação, a técnica deve ser complementada com a versão genética, que envolve o melhoramento vegetal. “Há parceria entre a Embrapa e a Ufla para a seleção de cultivares que tenham maior potencial de absorção dos nutrientes fornecidos por meio desses fertilizantes. Por isso as duas linhas de pesquisa devem caminhar juntas”, acrescenta Sílvio. Com variedades mais propensas a extrair os nutrientes oferecidos por adubos enriquecidos, melhores serão os efeitos na alimentação humana.
O pesquisador explica que seus estudos para o doutoramento foram direcionados à alface e ao brócolis, modelos da pesquisa, mas outros alimentos certamente poderiam ser usados com o mesmo intuito. “Esse foco tem que ser expandido para culturas agrícolas que têm maior impacto na alimentação, como arroz, feijão, trigo, soja e as forrageiras, essas duas últimas principalmente para a alimentação animal”, observa. O avanço para o enriquecimento dos alimentos da cesta básica já é feito pelo pesquisador em parceria com Luiz Roberto Guimarães Guilherme e Valdemar Faquin, ambos professores da Federal de Lavras.
ESSENCIAL PARA A SAÚDE A escolha do selênio – micronutriente mineral com poderosa ação antioxidante – pode ser justificada. Estima-se que as deficiências nutricionais envolvendo esse nutriente atinjam 15% da população mundial. A principal causa estaria na baixa disponibilidade do elemento na maioria dos solos cultiváveis, que não são fertilizados adequadamente. Solos do cerrado brasileiro, onde hoje se concentra a maior parte da produção agrícola do país, em especial de grãos, já se mostraram pobres em selênio. “A cultura colhida ali também será deficiente”, garante Sílvio.
A carência do mineral está relacionada à incidência de certos tipos de câncer, anomalias morfológicas, doenças cardiovasculares, entre outras. O pesquisador lembra que a biofortificação agronômica com selênio já é realidade na Finlândia desde 1980. No texto da tese, ele explica que, para elevar o teor desse elemento na carne, leite, produtos lácteos e agrícolas, o mineral foi incorporado aos fertilizantes do país numa proporção de 10mg por quilo. O resultado é uma clara redução nas taxa de doenças cardiovasculares e de certos tipos de câncer na população desse país.
EM, 14/01/2013



