Culturas

Agricultores dos EUA inundam armazéns com soja devido aos preços mais baixos das sementes e à menor necessidade de fertilizante

Os agricultores dos Estados Unidos estão cada vez mais fugindo do milho para plantar soja, uma mudança drástica que está balançando os mercados futuros e afetando a economia agrícola do país em geral.

Analistas esperam que os agricultores americanos plantem uma área recorde com soja nos próximos meses pela segunda safra consecutiva, ao mesmo tempo em que reduzem suas lavouras de milho pelo terceiro ano seguido. Os produtores enfrentam um declínio de aproximadamente 50% desde 2012 nos preços do milho, a maior lavoura do país em volume.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, vai divulgar na terça-feira um influente relatório de plantio de milho e soja com base em pesquisa feita com os agricultores. Analistas esperam, em média, um aumento de 3% na área de plantio da soja em relação ao ano passado, para 34,8 milhões de hectares, e uma queda de 2% na área cultivada com milho, para 35,9 milhões, segundo pesquisa do The Wall Street Journal.

O produtor Del Unger e seu filho, que cultivam pouco mais de 2600 hectares no Estado americano de Indiana, planejam praticamente dobrar a área plantada com soja nos próximos meses, ao mesmo tempo em que reduzem a de milho.

“A economia é que dita [a regra]”, diz Unger, de 53 anos. “Com a soja, vamos ficar no equilíbrio ou ter um pequeno lucro, ao passo que o milho provavelmente vai nos deixar no vermelho”. Unger diz que a maior parte dos produtores pode alternar as duas culturas facilmente.

Mas o cultivo maior da oleaginosa, que é usada para fazer desde ração animal a molhos para salada, também tem um lado negativo. Muitos corretores e investidores apostam que o aumento na safra vai provocar quedas fortes nos contratos futuros da soja, possivelmente derrubando esse mercado de US$ 35 bilhões para mínimos recordes.

“O caminho de menor resistência é para baixo”, diz Steve DeCook, diretor-superintendente da Four Seasons Commodities Corp., uma consultoria de Dallas que administra US$ 125 milhões em ativos agrícolas. A firma está apostando em quedas contínuas nos futuros de soja, que já recuaram 5% este ano, após ter caído 28% durante os últimos dois anos.

Os agricultores estão se voltando para a soja por algumas razões: Os preços estão caindo menos acentuadamente do que os do milho, a demanda tem se mantido forte e os custos de produção da oleaginosa são mais baixos graças aos preços menores das sementes e à menor necessidade de fertilizantes.

A mudança está afetando produtores de sementes dos EUA como Monsanto e DuPont Co. , que geram mais receitas e têm mais lucros com a venda das sementes de milho. Em janeiro, a DuPont projetou lucros para 2015 abaixo das previsões de Wall Street, atribuindo seus números, em parte, à decisão dos produtores das Américas do Norte e do Sul de plantar menos milho, sua principal fonte de lucros com a venda de sementes.

Alguns analistas dizem que os futuros de soja poderiam cair bem abaixo de US$ 9 mais para o fim do ano por causa da maior produção americana e do crescimento nos estoques globais. O Goldman Sachs Group Inc. previu, no começo do mês, que os preços cairiam para US$ 8,75 por bushel em 6 meses. Terry Reilly, analista da corretora Futures International LLC, em Chicago, espera que os preços caiam para US$ 8,5 por bushel.

Mas a aversão ao milho poderia puxar para cima os preços do grão, que vêm sofrendo por causa da safra recorde de 14,2 bilhões de bushels nos EUA em 2014 e das preocupações com uma potencial queda na demanda dos produtores de etanol, que também enfrentam preços baixos depois da queda nos preços do petróleo.

Os fazendeiros do Meio-Oeste americano ampliaram por anos suas safras de milho para atender a crescente demanda por etanol e por ração animal, já que o crescimento da população mundial puxava para cima também a demanda por carne.

Mas esse aumento nos estoques de milho nos EUA e no resto do mundo, e a consequente queda dos preços, são uma grande razão pela qual o USDA está projetando que a receita dos produtores americanos deverá cair em cerca de 33% este ano, para o nível mais baixo desde 2009. Com o plantio da soja, alguns agricultores esperam poder limitar seus prejuízos.

Esse aumento no cultivo da soja ocorre ao mesmo tempo em que o Brasil e a Argentina, os dois maiores produtores mundiais depois dos EUA, estão colhendo safras recordes e expandindo a que já está sendo projetada como a maior oferta mundial de soja da história. Em 2014, os produtores dos EUA produziram um volume recorde de 3,97 bilhões de bushels de soja, um salto de 18% em relação ao ano anterior.

“Temos um volume recorde de soja nos armazéns e as safras nos dois hemisférios este ano foram simplesmente enormes”, diz Chip Nellinger, líder da consultoria americana Blue Reef Agri-Marketing Inc. “É uma tempestade perfeita que está começando a se formar [no mercado] de soja” 

The Wall Street Journal, 30/03/2015

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