Apesar do bom resultado com a safra de grãos, os agricultores estão cautelosos devido ao aumento dos custos para a próxima safra de soja
O Brasil deve colher safra recorde de grãos, segundo números divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento na terça-feira (12). Mas os custos da próxima safra já preocupam os agricultores.
O aumento na produção estimado pela Companhia Nacional de Abastecimento é de 4%. Serão colhidos mais de 202 milhões de toneladas de grãos.
“No conjunto ultrapassar os 200 milhões de toneladas é um número importante para o Brasil, para a sociedade brasileira, para o setor produtivo no momento que nós estamos colhendo 20 anos de crescimento da safra agrícola”, diz João Marcelo Intini, diretor de política agrícola da Conab.
Apesar do bom resultado, os agricultores estão cautelosos. Entre os motivos, está o aumento dos custos para a próxima safra de soja, a maior cultura do país e que representa quase metade da produção.
Em Mato Grosso, principal estado produtor do grão, a despesa com os insumos agrícolas, os produtos usados nas lavouras, deve subir 23%. Na dúvida, os agricultores adiam os investimentos.
“O atraso na decisão do produtor rural é toda decorrente de um atraso nas decisões do governo. Você tem uma expectativa de diminuição de volume de crédito na ordem de 15 a 20%. Ainda que se esteja anunciando que os recursos serão mantidos, em relação ao mesmo volume do ano passado, isso já significa um déficit de volume de crédito porque o custo aumentou”, afirma Wellington Andrade, diretor-executivo da Aprosoja.
“No mesmo período da safra passada tinha-se um volume de negociação de 80% a 85% dos negócios já realizados e neste ano estima-se que 40% a 50% dos negócios já foram realizados. Isso deve-se à incerteza do mercado”, explica Ederson Pilonetto, presidente da Cearpa-Sinop (Conselho Estadual das Associações de Revendas de Produtos Agropecuários de Mato Grosso).
A venda de máquinas agrícolas caiu 16% nos últimos 12 meses. Josemar queria trocar o pulverizador da fazenda, mas mudou os planos. Vai fazer uma boa manutenção no equipamento antigo.
“Vamos ter que revisar o que a gente tem para poder tocar mais um ou dois anos até ver se muda o quadro de juro para o agricultor”, afirma o produtor rural Josemar Rodrigues.
A venda de fertilizantes também caiu: quase 9% nos primeiros quatro meses de 2015. Nesta época do ano, o barracão na fazenda do seu Sérgio normalmente já estaria cheio de adubo, sementes e agrotóxicos. Hoje, ainda está vazio.
“Neste ano está tudo parado, não fiz nada e acho que, por este mês, será difícil fazer negócios”, diz o agricultor Sérgio Marcon.
Jornal da Globo, 12/05/2015



