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Aumento da demanda por fertilizantes contribuiu para o avanço da produção brasileira

Apesar dos prováveis reflexos negativos provocados pela desaceleração do crescimento da China, FAO e OCDE avaliam que as perspectivas para o agronegócio brasileiro continuarão positivas nos próximos dez anos, mesmo se forem confirmadas as expectativas de menor expansão das demandas doméstica e internacional e de queda dos preços reais da maioria das commodities agrícolas.

A primeira versão do relatório das duas organizações sobre as perspectivas agrícolas globais para entre 2015 e 2024, ao qual o Valor teve acesso, destaca o Brasil num capitulo especial, ilustrando o monitoramento persistente de parceiros diante da competitividade do país no mercado internacional. As entidades notam que, no lado da oferta, os produtores brasileiros deverão continuar a se beneficiar de aumentos de produtividades e da desvalorização do real.

Nos próximos dez anos, a agricultura deverá continuar a crescer no Brasil tanto com ampliação da área plantada quanto com aumentos de rendimentos. Os preços tendem a subir nominalmente, mas, quando ajustados pela inflação, ficarão estáveis. O uso da terra pela maioria das lavouras poderá alcançar 70 milhões de hectares, 17% mais que a média anual usada entre os anos de 2012 e 2014. Essa expansão de área deverá ser puxada pela cana (26%) e pela soja (21%).

Em termos absolutos, a soja continuará a dominar o uso da terra no Brasil nos próximos dez ano e poderá representar metade da expansão total de área até 2024. E, de modo geral, a agricultura brasileira continuará a apresentar um bom desempenho com taxas relativamente pequenas de subsídios.

A versão preliminar do estudo da FAO e da OCDE mostra que entre 2012 e 2014, os subsídios representaram, em média, 4% da receita bruta dos agricultores no Brasil, ante 19% na China e na União Europeia (os dois maiores importadores de produtos agrícolas brasileiros) 12% no México e 8% nos EUA.

As entidades destacam que, nos últimos dez anos, o avanço da produção brasileira veio sobretudo da melhora da produtividade do trabalho, do aumento da demanda por fertilizantes e da expansão da área plantada, com muitas pastagens convertidas em terras agrícolas.

FAO e OCDE também mostram que o valor agregado do setor totalizou quase US$ 109 bilhões em 2013, com crescimento anual médio de 6% desde 1995. Assim, o Brasil passou a contar com o quinto maior setor agrícola do mundo. O país mantém uma das maiores performances globais no que se refere à produtividade. “A agricultura brasileira tem sido impulsionada por um rápido crescimento da eficiência na utilização de fatores de produção, particularmente terra e trabalho”, diz o estudo. E notam que a agricultura tem sido o principal motor da produtividade na economia brasileira, contribuindo com 85% da melhora observada.

O aumento da produtividade é efeito, em parte, da substituição de trabalho por capital. A parcela da agricultura no emprego caiu de 18%, em 2002, para menos de 13% em 2012. Equipamentos obsoletos foram substituídos, e a frota de tratores mais que triplicou – o valor dos maquinários mais que dobrou a preços constantes.

O documento não projeta alteração no desempenho brasileiro como maior fornecedor mundial de produtos como açúcar, suco de laranja e café. Estima que as exportações de soja voltarão a superar as dos EUA até 2018 e que o país continuará a ter destaque em tabaco, frango, milho, arroz e carne bovina. Mas nota que as exportações brasileiras ainda são relativamente concentradas em poucos produtos. Em 2012, as exportações de soja totalizaram US$ 17,4 bilhões, representando 20% dos ganhos das vendas externas agrícolas. A soja deverá permanecer como o mais importante produto agrícola brasileiros nos próximos dez anos.

Além disso, o estudo aponta que o Brasil é pouco integrado nas cadeias globais de valor, com 14% de insumos importados, e é pequena a fatia de produtos exportados pelo Brasil usados por outras economias para gerar suas próprias exportações.

FAO e OCDE também analisaram o desempenho de sustentabilidade da agricultura brasileira. Observaram que as terras agrícolas registraram um aumento de 33 milhões de hectares entre 1990 e 2010 e, ao mesmo tempo, sinalizaram ter havido uma redução do uso de terras nativas de florestas, mas como a agricultura contribuiu para isso é um debate que continua. Ao mesmo tempo, o uso de fertilizantes e defensivos se intensificou no Brasil.

O documento começará a tomar sua forma final na reunião de maio do Grupo de Mercados de Commodities da OCDE e será publicado no segundo semestre.

Valor Econômico, 27/03/2015

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