Custo de produção para o plantio de Arroz no RS aumentou de 15% a 20% e deve subir pelo menos mais 10% em 2015/16, puxado pelo adubo
Os arrozeiros do Rio Grande do Sul concluem nos próximos dias a colheita da safra 2014/15 inseguros quanto aos rumos dos preços ao longo do ano devido à queda do consumo doméstico e à desaceleração das cotações internacionais e com medo de uma nova alta nos custos capaz de comprometer o plantio no ciclo 2015/16. O Estado deve responder por 68% da produção de arroz no país neste ano, estimada em 12,4 milhões de toneladas pela Conab.
“Produtores que nunca reclamaram estão repensando a atividade e avaliando reduzir a área”, diz o presidente da Federação dos Arrozeiros do Estado (Federarroz), Henrique Dornelles. Segundo ele, o custo de produção oscilou entre R$ 32 e R$ 36/ saca no ciclo 2014/15, alta de 15% a 20% sobre o anterior, e deve subir pelo menos mais 10% em 2015/16, puxado por energia elétrica, combustível, adubo e mão de obra.
A entidade projeta para o restante do ano preços ao produtor entre o patamar atual levemente superior a R$ 35 e o máximo R$ 40 por saca. Se o valor ficar abaixo desse teto, Dornelles prevê uma “queda significativa”, em 2015/16, na área plantada no Estado, que neste ciclo alcançou 1,12 milhão de hectares, ou 41% do total previsto pela Conab para o país. “O produto só é remunerador acima de R$ 38”, diz.
Segundo Dornelles, o setor pretende negociar com o governo federal uma “equalização” dos custos com energia elétrica e óleo diesel, mas ainda não tem uma estratégia pronta. Enquanto isso, os produtores seguram a venda do arroz para sustentar os preços.
Conforme o Instituto Riograndense do Arroz (Irga), o volume beneficiado no Estado e vendido em casca para outras regiões no primeiro trimestre recuou 2% ante o mesmo período de 2014, para 1,72 milhão de toneladas. Em março, primeiro mês do ano-safra, a queda foi de 5,4% sobre março de 2013, para 593,8 mil toneladas. Já as exportações do Rio Grande do Sul (97% do total nacional) caíram 12,2% no trimestre, para 254,8 mil toneladas base casca, e aumentaram 9,4% em março, para 139,8 mil toneladas.
O diretor comercial do Irga, Tiago Barata, diz que a melhor capitalização dos produtores e os ganhos com a soja plantada em áreas de pousio de arroz dão mais fôlego para a retenção das vendas nos meses de baixa de preço, de março a maio. Ele vê ainda os estoques reduzidos do país e o dólar valorizado a favor das exportações e contra as importações como benéficos às cotações.
Com isso, acredita, o piso do preço ao produtor neste ano foi o registrado em 27 de março, com R$ 35,57 a saca conforme indicador do Cepea/Esalq. O problema para os produtores é que o teto previsto por Barata é de R$ 39, levando em conta a acomodação do câmbio no patamar atual, pressionado pela redução do consumo interno e pela maior “agressividade” dos EUA no mercado internacional.
Para o consultor Carlos Cogo, a tendência é de “convergência” entre os preços do produto brasileiro e o americano num momento em que o câmbio se estabilizou e deixa de compensar a retração das cotações em dólar. Segundo ele, nos últimos 12 meses o arroz dos EUA recuou US$ 100 por tonelada, para US$ 485, enquanto o grão do Brasil caiu US$ 115 no período, para US$ 550.
“Em um mês os preços têm que se alinhar ou vai sobrar muito arroz nos estoques”, entende o presidente da trading Serra Morena, Mário Lopes. Segundo ele, o mercado brasileiro também está fraco, e o Paraguai, que vende quase toda a sua produção para o Brasil, já procura outros destinos como a África.
Conforme Cogo, o cenário é de excesso de arroz no mundo, principalmente nos EUA e na Ásia, e de compradores atrás de preços mais baixos, como o Iraque, que vem perdendo receitas com a desvalorização do petróleo, e Cuba. Os estoques no Brasil, em especial os públicos, estão nas mínimas históricas, mas a qualquer ameaça de alta exagerada de preços o governo ainda pode remover a Tarifa Externa Comum (TEC) de 12% para importações de fora do Mercosul, lembra o consultor.
Valor Econômico, 27/04/2015



