Culturas

Preço da soja eleva vendas antecipadas

A valorização da soja em mais de 7% só em abril gera uma expectativa de que a antecipação da venda da safra 2012/2013, prática que ganhou espaço desde 2011 por conta da demanda firme e da alta dos preços, mantenha-se em ritmo acelerado nos próximos meses. Mas analistas de mercado e dirigentes do setor no Estado advertem que é preciso cautela para não comprometer parcela importante da produção em caso de uma reversão do quadro. A recomendação de segmentos como Federação da Agricultura (Farsul) e Cooperativa de Júlio de Castilhos (Cotrijuc) é travar a negociação no limite do custeio de insumos.

Os produtores gaúchos que chegaram a antecipar a comercialização no ano passado estão vivendo na pele o remédio amargo do fator estiagem. Mesmo sem ter as perdas da safra atual contabilizadas e que devem ficar, em média, entre 35% e 40% da previsão de colheita, o diretor comercial da Cotrijuc, de Júlio de Castilhos, Genésio da Silva, lembra que muitos não estão tendo produto para honrar preços. Silva acredita que a taxa de antecipação entre os associados fique em 35% da projeção de colheita, em vez dos 40% do ano passado, quando houve empolgação ante os preços em alta e aposta em safra recorde. O parâmetro deve ser os gastos com insumos. “Esse tipo de negócio se intensifica desde 2011, mas com a seca deste ano muitos sojicultores não tiveram produtos para entregar e tiveram de renegociar contratos”, comenta o diretor comercial da cooperativa.

Silva avalia que a valor de R$ 53,00 pela saca já tem atraído produtores, mas muitos devem fechar quando atingir R$ 55,00. Num mercado que oscila muito, o executivo não descarta que a cotação suba mais um pouco. “Mas, se os fundos realizarem lucro, o preço pode recuar”, previne. O diretor da Cotrijuc projeta que este tipo de antecipação deve manter e ganhar espaço, pois o produtor tem mais informação. O presidente da Farsul, Carlos Sperotto, lembra que é difícil “palpitar” sobre um cenário que sofre tantas influências – tanto internas (seca) como externas, entre elas o desempenho da safra americana (que começa a ser plantada e pode haver quebra) e o comportamento de compradores chineses. Sperotto aconselha que o compromisso envolva o limite do custeio de insumos, já que os preços estão formados. “O melhor é compor preço para amortizar custo”, valida o dirigente. A entidade espera fechar a conta do desfalque da estiagem após quarta. Na soja, a estimativa é de quebra de 48% a 49%, e no milho, de 54%.

As boas condições de mercado para a soja fizeram com que até mesmo o Paraná, estado onde a venda antecipada não é uma tradição, passasse a desfrutar das oportunidades. “Da safra passada para essa, isso mudou no Paraná. O produtor paranaense vê preços convidativos e pensa em aproveitar o momento”, disse Robson Mafioletti, analista técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Segundo Mafioletti, 25% da nova safra já foi comercializada, ante menos de 10% do mesmo período do ano passado. O analista observa que as campanhas de venda de insumos, normalmente definidas entre junho e julho, começaram mais cedo devido à perspectiva de aumento dos custos de produção.

Centro-Oeste negocia em troca do pacote tecnológico

A comercialização antecipada é mais forte no Centro-Oeste, onde os agricultores negociam com as tradings a produção futura em troca do chamado pacote tecnológico (sementes, fertilizantes e defensivos necessários). O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) calculava na semana passada que o sojicultor do Estado havia negociado 85,9% da safra 2011/12 e 23,5% da 2012/13. No próximo levantamento, esses percentuais devem subir para 90% e 30%, respectivamente, segundo Daniel Latorraca, analista do Imea. “Quem manda é o preço. Se mantiver a alta, as vendas continuarão aceleradas”, disse. O presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Carlos Fávaro, concorda. “Enquanto tem lucro, (o produtor) vai botando no bolso, vai vendendo mais um pouco”, afirmou.

Robson Mafioletti, analista-técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), enfatiza, no entanto, a necessidade de uma moderação nesse entusiasmo. Segundo ele, embora não haja uma fórmula exata, a alternativa mais sensata ainda é a venda escalonada para se alcançar uma média de preço satisfatória. “Não é prudente comercializar 80% da safra antes de plantar. E se o preço cair, vender por um valor menor faz parte dos negócios. Agricultura é uma indústria a céu aberto.”

Leonardo Menezes, analista da consultoria Céleres, sugere que o agricultor que já travou os custos de produção e pretende prosseguir com as vendas da próxima safra aguarde até junho ou julho, quando o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgará relatório sobre a área plantada e o mercado terá melhores informações sobre as condições das lavouras do país. “Pode ser que haja problema climático nos EUA. Quem segurar um pouco vai ter a chance de conseguir preços melhores”, avalia. “Daí em diante, penso que seja arriscado segurar.” Na Bolsa de Chicago (CBOT), o contrato julho da soja, o mais negociado neste momento, acumula ganhos de 22% desde o início do ano.

Para o coordenador do Centro de Comercialização de Grãos da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (CentroGrãos/Famato), João Birkhan, não é preciso pressa, pois, mesmo que os Estados Unidos colham uma boa produção, os estoques da oleaginosa ao final deste ano-safra serão apertados. “Muita gente já trocou, comprou algum insumo para a safra nova, por isso não precisa ir com muita sede ao pote”, afirma Birkhan. “Tem espaço para a safra nova. Eu teria cautela.” As recomendações se deparam com produtores mais maduros e conscientes das oscilações do mercado, segundo Favaro, da Aprosoja, e Latorraca, do Imea. “Eles estão bem esclarecidos e conscientes de que existe um limite de comprometimento”, afirma Latorraca.

Jornal do Comércio, 30/04/2012

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