Culturas

Produtor troca real pelo dólar

O agricultor Emílio Kenji Okamura, de Capão Bonito, no sudoeste paulista, deixou de lado o real e está vendendo em dólar a soja que ainda vai plantar na safra verão, a partir de outubro deste ano. “Vendi as primeiras 5 mil sacas que vou entregar em abril de 2014 a US$ 28,10 a saca”, disse, na sexta-feira, após fechar o negócio. Até a semana anterior, ele só tinha trabalhado em real: havia comercializado 5 mil sacas a R$ 66 e outras 5 mil, dias depois, a R$ 69. O produtor espera colher 70 mil sacas do grão. “O preço da soja está subindo em função do câmbio favorável ao dólar, então achei melhor parar com o real e contratar a venda em moeda americana.”

De acordo com Okamura, como a economia dos Estados Unidos está se estabilizando, a tendência é de que a moeda americana continue valorizada. “Acho que o governo brasileiro não vai conseguir segurar a alta do dólar. Além disso, os defensivos e outros insumos já têm o preço dolarizado.”

Ainda são poucos os produtores que estão conseguindo fechar as vendas na moeda americana, mais por resistência dos compradores. A maioria dos negócios no mercado futuro de soja tem como referência o real. “Como o dólar está subindo, o pessoal fica indeciso em vender. Quem fechou a R$ 66 na semana passada já se arrependeu, pois agora já se vende a R$ 70 a saca posta no porto”, disse o gerente-geral da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito, Luis Carlos Mariotto.

Nesse caso, quem consegue contratar em dólar tem apenas de torcer pela estabilidade da moeda americana ou sua valorização ante o real. De uma forma geral, a alta do dólar está sendo benéfica para os agricultores, segundo Mariotto. “Quem antecipou as compras dos insumos está em vantagem, pois comprou com o dólar mais baixo.”

Segundo Mariotto, 80% dos agricultores da região fizeram as compras entre março e abril com o dólar na faixa de R$ 2. O produtor Nelson Schreiner comprou sementes e fertilizantes para plantar 900 hectares de soja em sua fazenda, em Itapeva, quando a cotação do dólar estava a R$ 2,18.

Há uma semana, ele vendeu 20% da futura produção fechando o preço do grão com a cotação da moeda americana a R$ 2,38. Assim, apenas na variação do câmbio ele garantiu um ganho adicional de R$ 5 por saca de soja. “Até aqui, a dança do dólar só me ajudou”, disse.

Schreiner acompanha as mudanças na cotação à espera do melhor momento para vender mais uma parte da produção, mas não esconde certa ansiedade: “É preciso ficar de olho, pois uma chuva nos EUA pode derrubar o preço da soja”.

A alta do dólar é considerada benéfica também pelo agricultor Ricardo Ghirghi, do grupo agrícola Água Clara, que planta 1,6 mil hectares em Taquarivaí, no sudoeste. “Com o dólar alto, o ganho com a soja é imediato, mas há o risco de termos de comprar os insumos mais caros no ano que vem.”

Estadão, 01/09/2013

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