Até onde ir com a agricultura de precisão na aplicação de fertilizantes?
O que influencia o sucesso da agricultura de precisão no campo? Dá para dizer que a lavoura será mais produtiva ou haverá redução no uso de insumos em todos os casos? Segundo a pesquisadora Cinthia da Costa, da Embrapa Instrumentação, nem sempre. Ela estuda um dos ramos mais disseminados dessa tecnologia no Brasil: o da aplicação de fertilizantes.
“O uso da agricultura de precisão é economicamente mais vantajoso se implantado onde há maior diferença de fertilidade na lavoura. No entanto, não se pode afirmar que a prática reduz o uso de insumos ou aumenta a produtividade das culturas sempre”, diz. Um ou ambos os benefícios podem ser observados dependendo das condições da área e da amostragem feita para a aplicação convencional de fertilizantes. Amostragem essa que precisa ser feita no detalhe.
“O problema é que hoje não existe, no Brasil, uma ferramenta acessível que dê suporte para o produtor avaliar se vale a pena ou não adotar a agricultura de precisão”, afirma Cinthia. Diante disso, é preciso ter claro que a tecnologia pode produzir ganhos significativos para uns, mas não necessariamente para outros, ainda mais quando levantados os custos dos equipamentos para fazer a aplicação a taxa variável. Abaixo, uma situação ilustrativa* ajuda a entender o que acontece em campo:

Nesse cenário, considerando que um talhão de 3 hectares tenha três áreas de igual dimensão com quantidades de fósforo (P) muito díspares, aparentemente, é mais vantajoso fazer a aplicação de fertilizantes por meio da agricultura de precisão.
“O resultado seria um gasto com 80 kg de fósforo (45+35+0) e a distribuição mais próxima do ideal desse nutriente na lavoura”, afirma Cinthia. Usando fórmulas de produtividade para calcular quanto de milho seria produzido, o resultado fica em 11 ton por hectare, ou seja, 33 ton/ha no talhão.
Um agricultor que faça a aplicação uniforme de fertilizantes nesse mesmo talhão do exemplo acima pode chegar a um resultado semelhante quanto ao uso de insumos mas com perda de produtividade. “Supondo que ele tenha constatado visualmente que o talhão se divide em três porções com comportamento bastante diverso, poderia ser feita uma mistura das amostragens de solo”.
A partir de análise feita em laboratório, teria-se que a média de fósforo presente no total do talhão é de 23,3 kg/ha – somadas as distribuições iniciais (5+15+50) divididas por três. Nesse caso, seriam utilizados 26,7 kg/ha de fósforo para totalizar a necessidade média de cada porção, o que daria 80,1 kg de P no total. A produtividade, por sua vez, seria de 9,1 ton/ha na área 1; 10,4 ton/ha na 2 e 10,2 ton/ha na 3 (a queda na produtividade deve-se ao excesso de fertilizante, que pode ser prejudicial à cultura), somando 29,7 ton/ha no talhão. O que esse segundo caso mostra, comparativamente ao primeiro, é que os gastos com insumos permaneceram praticamente iguais, mas a produtividade recuou.
“A conclusão que se tira é que quanto maior a diferença de fertilidade dentro da lavoura, maior o sucesso da agricultura de precisão”, frisa a pesquisadora.
O custo de equipar um trator com implemento e demais itens (GPS, computador de bordo) para fazer a aplicação variável de fertilizantes vai de R$ 20 mil, para os produtos mais simples, podendo chegar a R$ 100 mil, no caso dos mais complexos. “De modo geral, estamos falando de sistemas que incluem computador de bordo, receptor de GPS e um motor hidráulico que controla a vazão dos insumos”, explica o engenheiro agronômico Tiago Cappello Garzella. Além desses componentes, fazem parte dos sistemas a eletrônica de controle e comunicação.
Os preços variam em função dos recursos oferecidos. “Existem equipamentos que exigem que você coloque o mapa de aplicação em um pen-drive e descarregue o arquivo no computador de bordo. Outros, recebem a informação remotamente fazendo uso de um chip de celular”, exemplifica Tiago. A criação de mapas da quantidade efetivamente aplicada de produto em cada local da lavoura é também uma funcionalidade dos aparelhos de agricultura de precisão mais modernos.
“Então, não é só avaliar o incremento de produtividade ou redução no uso de insumos, mas também custos e estratégias de cada produtor para saber se vale a pena adotar a agricultura de precisão”, completa Cinthia, que estuda o tema desde 2012 e está trabalhando no desenvolvimento de uma ferramenta que dê suporte ao agricultor na hora de fazer sua escolha.
Desafios a curto prazo
De acordo com Ricardo Inamasu, coordenador da Rede de Agricultura de Precisão da Embrapa, a agricultura de precisão se baseia na gestão das variabilidades da lavoura para trazer retorno financeiro ao produtor. Essa heterogeneidade não se resume à questão dos fertilizantes, congregando também a absorção de água pelo solo, produtividade e qualidade do produto, incidência de pragas. Além dos fatores naturais, os antrópicos, como má calibragem da máquina ou inexperiência do operador, refletem também em discrepâncias. “Hoje, poucos estão tratando da variabilidade de doenças e pragas, mas a economia é enorme quando se aplica um herbicida somente onde está a planta invasora em vez de aplicá-lo de maneira uniforme”, diz Ricardo.
Apesar dos avanços na ciência que, segundo ele, não são poucos no Brasil, há certa dificuldade de mapear grandes lavouras. Para isso, nos Estados Unidos, são usados com frequência equipamentos que medem a condutividade elétrica do solo. O papel deles é facilitar a identificação de manchas com características semelhantes para tornar a amostragem de solo mais assertiva. “Quando se mede a condutividade elétrica, se mede a facilidade da eletricidade ser conduzida, e ela é melhor conduzida onde há menos espaço entre os grãos de terra, quando há mais água, mais íons”, afirma Ricardo. “A hipótese que nós usamos é que onde a condutividade é relativamente homogênea, as propriedades fisicas e químicas da mancha também são”. A partir daí, para cada mancha, é definida uma estratégia. O custo desses aparelhos ainda é alto no país e seria necessário investir em mão de obra capacitada para pôr em prática a agricultura de precisão a partir dos dados gerados por eles.
A falta de padronização entre os equipamentos associados aos tratores é outro ponto que encarece a tecnologia no Brasil. “Você não consegue usar o mesmo equipamento para fazer a aplicação de agroquímicos e fertilizantes porque o formato do mapa é diferente”, exemplifica.
Aplicação em pequenas propriedades
Segundo Ricardo, em pequenas áreas onde a produção tem alto valor agregado, a agricultura de precisão se mostra bastante eficiente. “Temos pesquisadores da Rede que identificaram sete tipos de solo em uma área de 4 hectares. Em propriedades pequenas você consegue fazer uma amostragem detalhada e montar estratégias a partir de uma prancheta”, comenta.
*Em situações reais, a aplicação de fertilizantes se dá por meio de tabelas de recomendação, e respeitam faixas que variam segundo a presença dos nutrientes no solo.
Portal DBO, 11/03/2016



